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Quando a cultura ganha casa no Alentejo: a história inspiradora da Oficina Rua do Relógio

Rádio Campanário

Programa: Hora do Café – As manhãs da Ana

Jornalista: Ana Rocha (A)

Entrevistada: Luísa Veloso (L) – Cooperativa Oficina Rua do Relógio

Link audio: https://www.radiocampanario.com/quando-a-cultura-ganha-casa-no-alentejo-a-historia-inspiradora-da-oficina-rua-do-relogio/

 

Introdução - ...com boa disposição, com Ana Rocha, de segunda a sexta, das oito às onze, a Rádio Campanário traz-lhe “As manhãs da Ana”. Música, entrevistas, informação e curiosidades. Não perca as conversas inspiradoras na “Hora do Café”, com a assinatura de Ana Rocha. “As manhãs da Ana”, o programa que traz mais alegria às suas manhãs. Ouça-nos em 90.6 ou em www.radiocampanario.com “As Manhãs da Ana”. Música.

Ana Rocha (A) - Nove horas com quarenta e sete minutos, votos renovados de um muito bom dia para todo o auditório da Rádio Campanário. Todos aqueles que acompanham o programa “As manhãs da Ana”, desde as oito horas, já sabe que vamos consigo até às onze. E está na altura de darmos início à nossa “Hora do Café”. É nossa convidada hoje, a Luísa Veloso. E perguntam vocês quem é a Luísa Veloso, pois é isso que vamos dar a conhecer. Luísa está aqui para nos contar um pouco sobre o projeto A Oficina Rua do Relógio de Alcáçovas, no concelho de Viana do Alentejo. Vamos dar as boas-vindas à nossa convidada. Luísa, muito bom dia. Bem-vinda.

Luísa Veloso (L) - Muito bom dia, Ana. Muito obrigada.

A- Ora, seja muito bem-vinda a esta casa. Julgo que não conhecia as instalações da Rádio Campanário. Está aqui pela primeira vez. Agradecer-lhe em primeiro lugar a sua disponibilidade para estar aqui nesta manhã.

L- Somos nós que agradecemos, o facto de nos receberem aqui.

A- A Luísa já fez uns bons quilómetros hoje para estar aqui. Veio de Grândola, não é?

L- É verdade. Onde moro, em Grândola, entre Grândola e as Alcáçovas.

A- Então antes de irmos propriamente à Oficina Rua do Relógio, eu gostava de conhecer um bocadinho melhor a Luísa. Estamos a falar de alguém nascido e criado em Grândola?

L- Não. Então, eu nasci em Vila Nova de Famalicão, no norte do nosso país. Estudei no Porto Sociologia. Sou Socióloga de formação. E dei aulas na Faculdade de Letras da Universidade do Porto até 2008. E de lá vim para Lisboa em 2008. Desde os meus 20 anos que sou completamente apaixonada pelo Alentejo. O Alentejo é a região de Portugal que eu mais, onde eu me sinto melhor.

A- Mas como é que nasceu esse amor?

L- De vir, visitar, inicialmente, particularmente desta altura do ano, na primavera, que é muito bonito, é particularmente bonito. E fui ficando.

A- Portanto não há aqui, não há família no Alentejo?

L- Não há família no Alentejo.

A- É curioso, porque às vezes somos um bocadinho empurrados, ou pelas raízes, ou porque há um determinado familiar. E aqui no seu caso foi diferente. Ora, Sociologia. O que é que a levou a ir para essa área?

L- Então, a Sociologia é uma ciência social que sempre me apaixonou desde o ensino secundário. Nasceu até com uma professora, que era a minha professora de Sociologia. Nessa altura ninguém sabia o que era, não é? E eu percebi que seria uma área que me permitiria compreender os factos sociais, as pessoas, e compreender para além daquilo que nós chamamos de conversa de café, não é? Portanto, compreender verdadeiramente o que é que se passa. E também é isso que tenho feito no Alentejo. Há pouco ano eu estava a dizer que não houve ninguém que me empurrou para aqui, e não tenho aqui familiares, mas temos uma coisa muito importante, uma coisa não, pessoas muito importantes que são os vizinhos. Que como sabe, no Alentejo tratámos-nos todos muito por vizinhos, e neste momento já faz 10 anos que estamos a morar na Serra de Grândola, e temos muitos vizinhos que são da nossa família.

A- Portanto, acabou por constituir família, e está tudo na zona de Grândola, no Alentejo?

L- Em Grândola, e depois mais recentemente nas Alcáçovas, onde temos uma casa, que portanto sou eu e o meu marido, o João, que é arquiteto, e ele fez um trabalho de renovação de uma casa no núcleo histórico de Alcáçovas.

A-Que maravilha!

L- Alcáçovas é um território belíssimo, como a Ana com certeza também saberá, tem um edificado invejável, e nós fizemos uma recuperação de uma casa de um senhor de lá, que é o senhor João Guilhéu, que é uma pessoa também histórica.

A- Conhecida também.

L- Sim, bastante conhecida, até é poeta e faz peças de teatro, escreve, é autor, e nós fizemos uma recuperação mantendo a arquitetura tradicional de Alcácevas, as abóbadas, as abobadilhas, foi muito interessante quando decidimos tirar o reboco, que as pessoas escondiam muitas vezes com uma pintura de branco, e nós fizemos essa recuperação e lá fundamos, ou criamos também a sede da cooperativa Oficina Rua do Relógio.

A- Já lá iremos só perguntar, dizia que aprofundar o conhecimento das pessoas, posso dizer então que a Luísa é uma pessoa de pessoas?

L- Exatamente, uma pessoa de pessoas, não só analisando pessoas como conjuntos, imaginemos uma população, um grupo profissional, um território, como é o que estamos aqui neste momento, mas também analisando as especificidades de cada pessoa, porque todos nós temos raízes sociais, não é? Se eu agora se fosse estudar a Ana e lhe perguntar quem são os seus pais, a sua família, de onde é que veio, o que é que faz, para termos aquilo que se chama uma trajetória de vida das pessoas.

A- Esse estudo das pessoas que começa lá atrás, no passado, e que vai evoluindo com o passar dos anos, e com o avançar na vida das pessoas, permite depois olhar para as pessoas no contexto da sociedade que temos hoje. Porque há pouco ali dentro, enquanto aguardávamos pela hora de começar a entrevista, falávamos desta questão de estarmos em territórios do interior, territórios de baixa densidade, e assistir ainda muita solidão, muitas pessoas que vivem sozinhas, que passam os dias sozinhas. É importante, a sociologia hoje dá um contributo ainda mais importante para a sociedade que temos, tendo em conta que é hoje necessário olhar mais para os outros, mas olhar com olhos de ver, não basta só olhar.

L- Sim, é muito importante. Eu acho que a sociologia, não só em Portugal, mas também, tem feito um trabalho, juntamente com outras ciências sociais, não quero aqui estar a dizer que é só sociologia, tem feito um trabalho muito importante, precisamente como a Ana estava a referir, no estudo dos territórios de baixa densidade, e nas questões que estão associadas ao envelhecimento da população, e estas pessoas, como há pouco falávamos, todos nós duramos mais anos, também, de alguma forma.

A- A esperança média de vida está a aumentar, como sabemos.

L- Está sempre a aumentar, e portanto, eu tenho muitos vizinhos que têm 80 anos ou mais, e portanto, é muito importante perceber, e acima de tudo, há pouco a Ana disse a uma pessoa das pessoas, ouvir as pessoas. Porque, muitas vezes, nós nas universidades, assumimos uma atitude de cima para baixo, nós é que sabemos, e isso é tudo mentira. Ou seja, é muito importante sentarmo-nos e praticarmos a escuta, que é uma coisa que eu valorizo muito, e a rádio, como a Ana sabe, é um espaço de escuta muito, muito importante.

A- E às vezes falta-nos tempo para isso, para ouvir os outros, e às vezes até para nos ouvirmos a nós próprios.

L- Sim, mas a questão do tempo é uma discussão muito importante, portanto, é muito relevante que nós abandonemos esse discurso, porque quem faz o tempo somos nós, não é? E então...

A- Também de boa vontade conseguimos chegar a todo lado, não é?

L- Há tempo, nós gerimos o tempo, e por isso, isso depende das prioridades que nós definimos no tempo de que dispomos. Por exemplo, como a Ana disse, eu vim de Grândola hoje, estou aqui, é uma opção, não é?

A- Claro, fazer estes quilómetros e fazer esta distância é uma opção. Poderia ter dito que não, não é?

L- Sim, mas acho que é muito importante contribuir para que todos possam conhecer o que estamos a fazer, e que estamos muito empenhados, como falaremos, mas também conhecer as pessoas, não é? E sermos contactados pelas pessoas que nos estejam a ouvir.

A- É sair também um bocadinho da nossa quintinha, porque aquele mito de que cada um defende a sua quintinha, acho que isso já lá vai. Agora temos que olhar para a região e para o território como um todo, não é?

L- É, e também posicioná-lo a nível nacional e internacional.

A- Não podemos ficar por aqui.

L- E porque há muitas realidades muito semelhantes, por esse mundo fora, àquilo que vivemos no Alentejo, e muitas vezes esquecemos-nos que podemos aprender com os outros, não é? E tanto há sítios em que há muitas atividades e muitas formas de integração, por exemplo, das pessoas mais idosas, como há pouco disse, ou pessoas de idade maior, que é uma expressão que eu gosto muito, e que podemos aprender uns com os outros.

A- Esta partilha é determinante, não é?

L- Aliás, eu acho que é mesmo uma questão fundamental, porque é muito triste, como acabou de dizer e muito bem, nós estarmos na nossa quintinha, e é muito importante trabalharmos todos em colaboração e em parceria e em rede. Eu penso que isso é uma questão absolutamente crucial. Aliás, o Alentejo, só quem cá não está ou não conhece, é que não se apercebe da multiplicidade de instituições, de rádios, de entidades, de pessoas que fazem imensas coisas. E há uma riqueza muito grande. E o que eu acho que por vezes é importante e que falta um bocadinho é tentar contribuir para que estes nós da rede estejam articulados entre si e que ultrapassem muitas vezes questões de ordem político-partidária e questões até de pesilhas, como costumamos dizer, e entre as pessoas para que haja colaboração. Se não houver colaboração, do meu ponto de vista é muito difícil contribuir para o desenvolvimento de todos nós e dos territórios.

A- Consegue entender que, sendo esta a região que é, a essência esteve cá sempre, esta diversidade cultural e riqueza patrimonial e cultural esteve cá sempre, consegue entender que só a partir de determinada altura é que se olhou para ela? Porque o que é facto é que há alguns anos é que o Alentejo virou moda, como sabemos. Consegue entender isto?

L- Virou moda para o bem e para o mal, não é? Sim, para o bem e para o mal. Algumas coisas não precisávamos. Nós que moramos em Grândola e que assistimos à especulação imobiliária e a tudo aquilo que se está a fazer de destruição do litoral, desde Melides até Troia, é uma coisa absolutamente desolador. Depois, como está a dizer, agora virou moda, mas eu gostava de recordar que o Alentejo foi o centro da reforma agrária. E o centro da reforma agrária significou, isso está documentado, que vieram pessoas de muitos países absolutamente espantados com o que estava aqui a passar e vieram ver, não é? E tiveram cá pessoas muito importantes, importantes, quero dizer, como pessoa, não é? Do ponto de vista daquilo que foi a Simone de Beauvoir, o Jean-Paul Sartre, realizadores, lembro-me de um realizador americano, agora não estou a recordar o nome, o Kramer, acho que é Kramer, e que vieram ver.

A- E já nessa altura fomos referência.

L- Exatamente, e o que eu penso é que podemos depois estudar sociologicamente o que aconteceu a seguir à reforma agrária. Mas, para a memória de todos nós, eu acho que é muito importante pensarmos que, por exemplo, a reforma agrária, entre outras coisas, isso é um exemplo absolutamente notável de como é que as pessoas conseguem organizar e conseguem fazer coisas. Lembremos-nos que muito do tecido cooperativo que nós hoje temos no Alentejo é um resultado disso. E outra coisa muito importante, que tivemos há pouco tempo, o Dia da Mulher, o papel das mulheres nesse processo. E eu já fiz uma investigação sobre a forma como o trabalho é representado no cinema português, e lembro-me em alguns dos filmes de ver, de uma forma absolutamente notável, as mulheres, nas praças, quando tiveram escondidas durante tanto tempo, a dizer como é que se pode fazer, como é que se organiza uma cooperativa, como é que essas coisas podem, de facto, concretizar-se. Portanto, eu também acho que a questão é que nós não nos podemos esquecer disso. E isso é um exemplo, entre muitos, da capacidade das pessoas de fazerem por si próprias o país. E como a Ana sabe, hoje, por exemplo, em Grândola há uma cooperativa, há muitas cooperativas por aí fora, com outras configurações, obviamente não vamos ficar congelados no tempo...

A- Claro, temos que ir evoluindo, não é?

L- E isso contribui. Portanto, o Alentejo está na moda, agora voltando àquilo que disse, é importante que ele esteja na moda, mas é importante que as coisas fiquem...

A- Não o desvirtuar, não é?

L- Exatamente. Não é termos pessoas famosas que vêm, etc, etc, e depois quando tudo acaba, vai-se tudo embora e fica tudo mais ou menos na mesma. Esperemos que não.

A- Não é por acaso que se costuma dizer que não há futuro sem passado, não é?

L- Exatamente.

A- Às vezes caímos no erro de esquecer aquilo que está para trás. Mas isto tem um processo lógico, um seguimento lógico. Estamos a falar de um passado, de um presente, olhando para o futuro. Por isso é que existem estes espaços temporais, não é por acaso, não é? Ora, vamos ao espaço Oficina do Relógio, a Rua do Relógio. Então, conte-nos lá, em primeiro lugar, talvez para começarmos esta conversa, o que é propriamente dita a Oficina Rua do Relógio?

L- Então, a Oficina Rua do Relógio é uma cooperativa que tem dois grandes, digamos três domínios de ação. Por um lado, todo o domínio cultural e artístico, que é bastante predominante. Por outro lado, a questão da investigação, para promover e construir conhecimento. E por outro lado, a questão da educação e da aprendizagem. Eu quando digo aprendizagem, é para frisar que não somos nós que vamos ensinar, mas que nós vamos aprender com outras pessoas e vamos aprender em conjunto. E tudo isto é feito em conjunto. Nasceu de um conjunto de seis pessoas, a única pessoa, eu sou cidadã alcaçovense, mas as outras não são, que têm as suas atividades profissionais, mas que têm como objetivo, precisamente, desenvolver atividades com as pessoas do território e para as pessoas do território.

A- Mas na altura, a ideia nasceu de quem? Foi da Luisa?

L- Foi destas seis pessoas.

A- Ah, era um grupo de amigos, já se conhecia.

L- Exatamente, o Pedro Rocha, já agora aproveito, o Pedro Rocha, a Cristina Grande, o Carlos Batista, o Juan Luis Toboso, eu e o João Lima. Espero não estar a esquecer de ninguém. Acho que não. Somos seis, não é? E que nós, no fundo, fomos conversando sobre esta vontade de ter, de construir alguma coisa em conjunto até porque é uma forma de conseguirmos concretizar objetivos pessoais, principalmente como cidadãs e cidadãos que não conseguimos concretizar, muitas vezes, nas nossas vidas profissionais.

A- Consideraram, na altura, que havia esta lacuna no território porque, às vezes, quando estamos em zonas mais pequenas sentimos um pouco a falta daquilo que há de oferta nos grandes centros. Temos uma qualidade de vida muito melhor, seguramente. Acho que isso é indiscutível. Mas depois, às vezes, falta-nos outras coisas, não é? É preciso, às vezes, encontrar este equilíbrio. Sentiram que havia esta lacuna?

L- Sim. Portanto, o Conselho de Viena do Alentejo e Alcáçovas, em particular, tem um tecido associativo muito denso que, aliás, também é uma característica de outros conselhos no Alentejo. Só que é um tecido frágil, não é? É um tecido frágil que é muito dependente também dos apoios das Juntas de Freguesia e das Câmaras Municipais. É frágil do ponto de vista económico, não é frágil do ponto de vista cultural. São associações, nós conhecemos algumas, com quem já colaboramos, muito fortíssimas, que promovem a cultura da região. Mas depois há um olhar, digamos assim, contemporâneo que nós queremos trazer para o território e aproveitando e potenciando todo o património que há naquele conselho. Não só nas Alcáceres, mas, como a Ana sabe, tem, por exemplo, património material, o Paço dos Enricos, que é um sítio espetacular, mas depois também tem a Sociedade União Alcáçovense, em Viana do Alentejo tem um excelente teatro totalmente equipado, só para lhe dar alguns exemplos. Há muitos mais. E depois há todo o outro património, não é? A doçaria, os chocalhos e a cerâmica, também só para ter alguns exemplos, que têm, nos três freguesias, têm muita importância. Mas, como há pouco estava a dizer, quando estava a falar da reforma agrária, eu não tenho nada, uma visão só saudosistas destas coisas e, portanto, não queremos olhar para este património com o lente do passado. Só para lhe dar um exemplo, ainda há três semanas, teve aqui um músico convidado por nós, que é o Lup Hubert, que esteve numa das oficinas, penso que até é a única dos chocalhos, de construção dos chocalhos, e que fez registros, e também esteve com ele o Henrique, que é de uma associação ligada à música do Porto, e que já lá tinha estado, e que fizeram recolha de sons, e vão fazer um trabalho a partir daí, mas não é reproduzir a questão dos chocalhos. E as pessoas gostam muito e recebem muitíssimo bem este tipo de iniciativas.

A- Até levar o património e depois, além fronteiras, como no caso do Lupo, estamos a falar de alguém francês. Eu já não tinha a certeza se era francês.

L- Por exemplo, quando ele cá esteve, ele tem um projeto que é o Canto Nudo, que já tinha estado o ano passado, mas depois já lá voltamos, que foi a nossa primeira iniciativa, o Lu veio com a Soledade Zarca e com a Maria Rita, tem este grupo chamado Canto Nudo, e iam para os cafés cantar músicas que eles sabem, recolheram, e partilhavam nos cafés as músicas e ouviram também as pessoas lá. E mesmo, por exemplo, grupos, um grupo em particular, um grupo feminino de canto alentejano, eles estiveram nos ensaios, e elas partilharam o seu canto, e eles partilharam as suas canções. Quando, no dia 17 de Fevereiro, a cooperativa fez, comemorou o seu primeiro ano de existência, nós fizemos um concerto lá, na cooperativa, com estes três músicos, e as senhoras do canto alentejano vieram assistir, e andamos pelas ruas da Alcáçovass, portanto, isto para lhe dizer, para lhe dar um exemplo, de que é possível não só...

A- Encontrarmos-nos na diferença, no fundo, não é?

L- Exatamente, preservar o património, e ao mesmo tempo mostrar que há outros patrimónios, que depois ouvimos as pessoas da Alcáceres dizer, ah, estas canções são bonitas, porque de facto estamos a falar de três pessoas com vozes belíssimas, etc.

A- Portanto, vocês estão instalados...

L- Na Rua do Relógio, por isso é que se chama Oficina da Rua do Relógio, e a oficina era uma antiga oficina de sapateiro.

A- Ah, pois, portanto estava direcionado também, o nome acaba por... Direcionado para esse ofício que hoje em dia está em vias de extinção, tenho a dizer. Nós às vezes queremos mandar arranjar uns sapatos e não há onde. Foi fácil intrusarem-se com a comunidade na altura em que... Porque a cooperativa tem quantos anos?

L- Um.

A- É um aninho ainda, é muito nova, não é?

L-Então, tem um aninho, houve um trabalho de intrusamento, que é uma excelente palavra que a Ana está a utilizar, que foi a própria recuperação da casa, não é? Eu e o João, em particular, o meu marido, que é o arquiteto da recuperação, obviamente que contratamos pessoas lá, íamos à Feira da Doçaria permanentemente, há uma loja em frente à nossa casa onde nós vamos sempre, e portanto o Sr. João Ilhéu, que é, como lhe disse, uma figura notável das Alcáçovas, foi ele que nos vendeu esta casa, e portanto nós fomos desde logo intrusando. O que é que a cooperativa decidiu fazer depois de ter sido criada o ano passado? Foi fazer uma iniciativa como se fosse uma iniciativa piloto. E nessa altura fizemos uma escola de verão, em junho. O ano passado? O ano passado. E essa escola de verão é uma escola que tinha uma parte académica, digamos assim, não é? Abrimos um call, temos neste momento outro colo aberto, e era uma escola dedicada ao tema da reprodução social, ou seja, do papel das mulheres para tomar conta da casa, portanto esta ideia de nós, das mulheres terem um papel, uma atividade não remunerada, mas são elas que conseguem, reprodução significa, são elas que conseguem que nós sejamos alimentados, vestidos, etc, não é? Reproduzir para produzir, portanto não quero muito adiantar muito do jargão, espero que tenha sido claro, não é?

A- Sim, sim.

L- E então fizemos um call aberto, e para a nossa surpresa não sabemos como, quer dizer, sabemos que é pelas redes que temos, mas não sabemos como é que isto aconteceu, tivemos pessoas de cerca de 11 ou 12 nacionalidades. Diferentes. Mas assim, pessoas, não estamos a falar só da Europa, estamos a falar dos Estados Unidos e de muitos outros países, e vieram. Só que essa escola não teve só isso, teve também, e para nós, as artes, a cultura e a ciência estão horizontalmente em pé de igualdade naquilo que eu chamo de construir conhecimento sobre a realidade. Portanto, eu não acho nada que a ciência está lá numa torre de marfim, e portanto, tivemos artistas da performance, a Sónia Batista, por exemplo, que fez uma performance precisamente sobre a questão das mulheres, tivemos estes músicos que há pouco lhe falei, fizeram uma coisa muito interessante, que foi, ao lado da nossa cooperativa, há um cinema fechado, para aí há 60 anos, e que é, logo vendo de fora, é belíssimo. E então, nós conseguimos, com a Câmara Municipal, autorizaram-nos, abrimos a porta do Museu, do Museu Peixe-Copa do Cinema, e o espetáculo foi lá, e depois veio para as ruas. E tivemos, portanto, todo um conjunto de atividades artísticas, culturais, houve também uma atividade, eu vou-me esquecer de alguma, de certeza, e já lá vou à sua pergunta, que é, há uma iniciativa nos Alcáceres que se chamou Viajante, que são pessoas, é um conjunto de pessoas de lá, que distribuem um poema por mês nas caixas do Correio. E então, nós conhecemos algumas dessas pessoas, neste momento, uma delas, que é o Eduardo Luciano, que estava na Câmara Municipal nessa altura, e que hoje é nosso cooperante, e que foi uma das pessoas mais importantes para nós conseguirmos concretizar esta escola, fizemos um passeio pelas Alcáçovas, um dia à noite, por sorte e por azar, apanhamos uma semana de 40 e tal graus,

A- Então há muita gente na rua, seguramente.

L- E fizemos, e em cada ponto dos Alcáceres, em que o Viajante decidiu parar, era lido um poema, e tínhamos uma das pessoas da nossa Comissão Organizadora da Escola, um jovem, a traduzir para inglês, para todas as pessoas que não sabiam português compreenderem. E portanto, isto para lhe dizer que esta escola só foi possível, primeiro, com o apoio do Município, da Junta de Freguesia, que nos disponibilizaram, nomeadamente, o Passo dos Enricos, tivemos lá também uma exposição do André Lemos, que é um artista que nós prezamos muito, e que criou um conjunto de desenhos, especificamente sobre este tema, propositadamente para a Escola de Verão, e portanto, tivemos estes apoios locais, e depois tivemos também, e hoje são nossas pessoas próximas, o apoio das Associações. Associações, só para lhe dar algum exemplo, que nos emprestaram a louça, porque nós, uma das coisas que fizemos na escola foi que cozinhamos o pequeno almoço, o almoço e muitas vezes o jantar, um dos nossos cooperantes, que há pouco lhe referi, que é o Carlos Batista, é uma pessoa da área da alimentação, e estuda mesmo o património alimentar, e então, ele era o nosso chefe, nós tivemos também, a Câmara facultou-nos um espaço para nós fazermos, para cozinharmos, e depois as Associações, olha, emprestaram-nos louça, emprestaram-nos frigoríficos, emprestaram-nos...

A- Ou seja, perceberam que não eram, entre aspas, se me permita a expressão, concorrentes, perceberam que eram uma mais-valia para o território.

L- Exatamente, e pronto, e essas pessoas, sem este tecido, ou seja, sem o apoio das entidades públicas, sem a fruição, digamos assim, do património, mesmo cá fora no Paço dos Enricos fizemos uma festa no último dia, com um DJ, a Câmara também proporcionou o equipamento de som, etc. Até aconteceu uma coisa muito engraçada, que foi, também um dos nossos atuais cooperantes, que é o Tiago Pinhal Costa, faz DJ-ing frequentemente, ele é arquiteto, mas tem essa atividade que gosta muito. E então, nós estávamos lá na festa, e começaram a aparecer uns jovens dos Alcáceres, e eu disse, mas para que vocês vieram aqui parar? E eles disseram, estávamos ali no jardim, ouvimos uma música tão boa, que queríamos virar a festa. Pronto, portanto, temos esta iniciativa, foi muito importante, e para nós também percebermos que havia caminho para fazer, não é? Neste momento já temos, fizemos uma espécie, um plano de atividades, que nós chamamos o ciclo da terra, para os próximos três anos, e estamos a fazer, portanto, a nossa, nós temos, este ano temos, as nossas atividades são também uma escola, que chamamos Terra, Terras e Territórios, que tem um call aberto, e que está também no nosso site, no Instagram, é muito fácil.

A- Ou seja, quem quiser pode inscrever-se, é isso?

L- Pode-se candidatar, e pode-se inscrever, nós também abriremos a possibilidade das pessoas que não queiram apresentar nada em concreto, mas que possam ir assistir, portanto, a Ana está desde já a convidar, muito obrigada, é entre o dia 19 e 24 de julho, e portanto, também será um gosto termos a rádio como nossa parceira, e temos também em curso, portanto, como lhe disse, tivemos esta residência do Lup, da Soledad, da Maria Rita e do Henrique, que já estiveram cá, durante mais ou menos duas a três semanas, e estamos também a programar duas exposições, a terem lugar também no Paço dos Henriques, a Câmara Municipal Viana do Alentejo, muito simpaticamente, cedeu-nos uma salinha lá no Paço, que na realidade é um corredor no piso, no resto de chão, mas que é um sítio que nós gostamos muito, porque tem um pé direito alto... Portanto, vamos lá fazer aquilo que nós chamamos de Laboratório Gráfico do Paço, em que vamos ter sempre exposições, se conseguirmos sempre financiamento até 2028 para já, e também esta ideia, lá está, dos artistas fazerem trabalho original, mas também promovermos uma oficina, por exemplo, com pessoas de idade, de idade maior, como há pouco falávamos, ou e ou com jovens...

A- Até atividades geracionais... Intergeracional... Que é uma coisa que funciona muito bem...

L- Sim, e na freguesia da Guiara há uma associação de jovens, e nós queremos implicá-los precisamente ouvindo as pessoas, voltando ao que eu há pouco estava a referir, ou escutando, não é? Conseguirmos também fazer atividades que não caem do céu, mas que têm a ver com aquilo que as pessoas também querem, às vezes não é só aquilo que as pessoas querem, mas também é aquilo que nós temos para partilhar. E, portanto, daí a questão da contemporaneidade é muito importante, e muitas vezes há esta ideia, ah, é porque as pessoas não conseguem, é tudo mentira...

A- Era isso que eu ia perguntar-lhe, porque há pouco, quando falava na questão da contemporaneidade, durante muito tempo achou-se que o Alentejo não tinha capacidade para receber esta diferença na área da cultura. O paradigma mudou, ou não?

L- Sim, esperemos, nós estamos aqui a tentar contribuir para isso. Ainda há caminho para fazer, mas já demos alguns passos. Sim, mas, por exemplo, o exemplo que há pouco lhe referi, destes três músicos estarem num ensaio de canto alentejano e terem tido a oportunidade deles próprios de cantar as suas canções, nota-se que, se feito de uma forma altruísta e disponível, é possível. Eu achei muito engraçado, porque o Lu levava um mini-acordeão e uma das coisas que uma das senhoras disse imediatamente foi, ah, no canto alentejano não há instrumentos. Sim, sim, claro, claro, mas agora nós vamos cantar uma canção nossa, não vamos cantar um canto alentejano. E então eu penso que é um caminho que está a acontecer e que, felizmente, tem frutos, não é? Agora, é preciso tempo.

A- Mostrar.

L- É preciso vontade dos municípios, das juntas de freguesia, etc, de valorizarem e de perceberem que é preciso apoiar este tipo de iniciativas para concretizar, não é? Porque, infelizmente, a cultura muitas vezes não é tida como uma esfera tão importante como qualquer outra e, na realidade, ao pensarmos que ela pode estar, no sentido que estávamos a dizer, relacionada com a saúde, com a questão da habitação, nós acabamos, como lhe disse, de recuperar este imóvel, com a questão da atração do turismo para o Alentejo, que não seja só o turismo das praias e de visitar todos os notáveis edifícios que nós temos, mas também um turismo interessado e participante, isso é um processo.

A- E não é só no turismo, também na capacidade de atrair pessoas que venham definitivamente para o território, porque hoje em dia, com os nómadas digitais, é muito fácil as pessoas mudarem-se para cá e trabalharem à distância, portanto, não têm qualquer problema, mas depois precisam de tudo o resto, precisam de ter escolas, precisam de ter saúde, precisam de ter cultura, precisam de ter habitação, portanto, é um conjunto.

L- E os nómadas digitais, já agora que falam nisso, eu como sou socióloga, há uma coisa muito importante que eles têm de fazer, que é aprender a nossa língua. Muitas vezes os nómadas digitais vêm, estão nos seus sítios, estão permanentemente online e depois quando vamos falar com eles não falam uma palavra de português e isso está mal.

A- Mas esse problema nós já temos há muitos anos. Nós vamos daqui a Badajoz, temos de falar a língua deles. Exatamente. E são aqui vizinhos, paredes meias connosco. E eles vêm de lá para cá e chegam cá e não falam a nossa língua. Tivemos um casal que moram em Amsterdão, ele é alemão, ela é austríaca e disseram-nos, ah é um sítio para nós comermos e tal, mas vocês o que é que querem comer? Nós somos vegetarianos. Ah, pois, mas os pratos tradicionais alentejanos também há, mas um dos que é muito interessante é as migas alentejana com carne de porco. Sabe o que é que eles disseram? Disseram, ah, então nós vamos comer, porque nós somos vegetarianos, mas sendo uma parte do património nós queremos experimentar e queremos crescer. E comeram. E portanto, isto para dizer que é muito importante que nós lutemos contra, e é isso que a cooperativa está a fazer, que lutemos contra estarmos num sítio, mas não estarmos. É estar, mas não estar. E portanto, é muito importante aquilo que a Ana estava a referir, que é importante os conselhos providenciarem recursos, aliás esses recursos também são precisos para nós, como sabemos, fala-se muitas vezes das questões da saúde, por exemplo, e da habitação. Mas também é muito importante que estas pessoas que vêm tenham um conhecimento, não é? E que conheçam a cultura, não apenas do ponto de vista daquilo que é mais vistoso, digamos assim, mas deste...

A- Portanto, há outras alternativas.

L- Há outras, e também há uma associação dedicada à dança. Portanto, eu acho que é muito importante que este trabalho sobre o turismo também seja feito para que as pessoas conheçam a cultura. Portanto, neste sentido. E nós também estamos empenhados nesse ponto de vista, não é?

A- Há pouco falava na questão do financiamento. Portanto, uma cooperativa muito recente, depois que passos é que foram dados, porque para se fazer coisas, eu costumo dizer, nós podemos sonhar muito, podemos projetar tudo, mas depois precisamos sempre da mesma coisa para conseguir dar o passo em frente, que é dinheirinho. Portanto, como é que vocês depois gerem aqui a questão do financiamento? É fundos comunitários?

L- O ano passado, na escola de verão, foi muito interessante. Nós tivemos o apoio da Câmara Municipal, da Junta de Freguesia, portanto, financeiramente tivemos o apoio da Câmara, da Junta, da CCDR do Alentejo, e tivemos o apoio de alguns centros de investigação que apoiaram a vinda de algumas pessoas. Tivemos o apoio, por exemplo, da Câmara Municipal de Vila do Conde, lá do Norte, porque a Sônia Batista veio apresentar um trabalho que criou, encomendado por eles. Tivemos o apoio, por exemplo, da Fundação Serra Henriques, porque uma das pessoas da Fundação Serra Henriques mora nas Alcáçovas, e de algumas associações na área da Sociologia, também. Tivemos esse tipo de apoios financeiros, mas tivemos outra coisa muito interessante, que foi apoios em géneros. Azeite, vinho, pão, a Margarida Ilhéu, que é uma das pessoas conhecidas nas Alcácebas, ofereceu-nos o pão, e, portanto, nós, neste momento, para esta iniciativa, a nossa próxima escola de verão, também estamos a fazer esse tipo de recolha de apoios.

A- Mas isso também são apoios, não é? Porque cada um dá aquilo que tem, aquilo que pode, e se fazem as refeições, isso é útil.

L- Portanto, quem nos esteja a ouvir, se tiver, não sei se posso dizer qual é o número de telefone, então, Luisa Veloso, 933252798, se tivermos ouvintes que gostassem de, e que terão, obviamente, o respectivo reconhecimento público, contribuir com bens e com dinheiro, obviamente, estamos absolutamente abertos e acolhemos.

A- Dar nota que se não conseguiu tomar conta do número de telefone que a Luisa acabou de referir, amanhã, quando disponibilizamos esta entrevista na íntegra, no texto que acompanha a entrevista, iremos colocar os contactos da oficina, portanto, poderão depois também consultar a página da Rádio Campanário para ter acesso a essa informação.

L- Depois, a par disso, o que nós fizemos, muito recentemente, para os anos 2027 e 2028, foi fazer uma candidatura ao Programa Por Móvel da Fundação laCaixa, porque aí será, se conseguirmos, não sabemos se conseguimos, um apoio financeiro sustentado durante dois anos, e já fizemos um conjunto de candidaturas à Direção-Geral das Artes, à Évora 27, que tem vários abertos, e também até financiamentos europeus, como é o caso, por exemplo, da Europa Criativa, que também dá determinados apoios. E à Fundação Carlos Gulbenkian, portanto, nós estamos, no fundo, agora, porque a Escola de Verão foi uma iniciativa, nós agora temos, dentro do ciclo da Terra, temos um conjunto de iniciativas, e estamos, desde janeiro, a montar e a entregar candidaturas, na expectativa, porém, de que, se conseguíssemos esse apoio da Fundação laCaixa, seria, seria muito importante, não é? Pronto, porque, como a Ana está a dizer, sem dinheiro não se faz nada, ou quase nada, mas...

A- Enfim, daria alguma tranquilidade, porque seria um apoio sustentado, consolidado no tempo, não é?

L- E depois, nós lá na oficina, como temos alojamento disponível, aquilo que temos estado a fazer são parcerias com associações e artistas, festivais, no sentido de acolher as pessoas...

A- É mais alguma receita para a Évora, não é?

L- Na realidade, nós oferecemos esta via, porque é o nosso contributo, não é? Pronto. Mas, de qualquer das formas, claro, como muitas outras entidades, estamos a fazer este tipo de trabalho, de recolha, de apoio, no sentido de conseguirmos ser sustentáveis, do ponto de vista económico e financeiro.

A- Não posso deixar de lhe perguntar como é que, sendo uma pessoa interventiva nesta área associativa, neste movimento associativo, e nesta área particular da cultura, como é que olha para Évora 27? Está quase aí a abrir a porta, falta menos de um ano. Com que expectativas se olha para este projeto, que convém sempre lembrar, não é um projeto de Évora. Évora, capital europeia da cultura, é muito mais do que Évora. É uma região, é um país.

L- Sim. Pois isso faz-me lembrar, eu aqui há uns anos fui visitar uma região na Alemanha, que era o Ruhr, que é a região do Ruhr, do norte da Alemanha, que pela primeira vez, nas candidaturas a Capital da Cultura, a candidatura era à região, não era uma cidade. E isso foi muito interessante. E eu fui lá visitar, que eles têm um património industrial recuperado incrível, foi uma das principais regiões do ponto de vista da atividade mineira, de aço, indústria pesada. E hoje quem visitar aquela região encontra um património industrial totalmente recuperado, reconvertido, só para lhe dar um exemplo, já lá vou a Évora, um complexo mineiro, que também é património da Unesco, tem piscinas, tem restaurantes, tem escolas, tem uma escola de dança, é impressionante. Évora 27 é de facto uma oportunidade muito importante para a região do Alentejo. Eu tenho alguma pena de que é recente esta abertura e os pedidos de apoio de candidaturas, etc. E havia sempre muitas expectativas, e ainda há, embora tudo tardou muito. Nós só sabemos de todas as questões que houve em torno da direção, etc. Não vale a pena, como é que se diz, chover um molhado. Eu não vou pronunciar sobre isso também, embora tenha as minhas opiniões. Mas tenho uma expectativa que com os calls que estão abertos para residências, para espetáculos, para eventos, etc., que a direção de Évora 27 consiga desenvolver um evento muito importante, mas que seja um evento, como a Ana disse bem, para o Alentejo. E com a colaboração de todas as pessoas, para que não corramos o risco, e às vezes isso acontece nos capitais europeus da cultura, de ser alguma coisa que é muito cirúrgico o tempo. E portanto é importante, e é importante deixar rastro. É importante que...

A- Pois, olhar para isto não em 27, porque o objetivo é trazer em 27, mas que perdure.

L- Exatamente, que perdure. Por exemplo, havia um projeto que eu não sei se ainda há, que era a criação do Centro Nacional de Dança Contemporânea em Évora, que é um projeto importantíssimo, porque não há em Portugal um Centro de Dança Contemporânea. Isso foi uma iniciativa que antecedeu saber-se que Évora era a capital da cultura. Eu não sei em que ponto é que isso está, mas na realidade é, por exemplo, uma questão muito importante, porque se nós tivéssemos deslocado de Lisboa e do Porto um Centro de Dança Contemporânea em Portugal, que é uma coisa muito importante, seria absolutamente fantástico. Mas é, por exemplo, um projeto que eu nunca mais sei em que ponto é que isso está. E são essas questões, que é criarmos projetos para ficarem para o futuro.

A- Para o vosso projeto, Oficina da Rua do Relógio, poderá também esta facilidade que irá haver seguramente em formar uma boa rede de contactos? Porque às vezes a rede de contactos, eu acho pessoalmente que é determinante em qualquer coisa na nossa vida. Ter uma boa rede de contactos é meio caminho andado. A vocês também vos vai permitir, digamos que, pensar no vosso projeto a médio e longo prazo?

L- Exatamente. Como se diz em sociologês, chama-se ter capital social.

A- É isso mesmo. Eu não sou socióloga, não chegaria lá, mas é isso mesmo.

L- E eu tenho estudantes que às vezes a brincar dizem, principalmente os estrangeiros, quando me veem fazer estas coisas todas, e que nos veem dinamizar, que nós temos que ser um social capitalista. Sermos os capitalistas sociais. E sim, eu penso que essa é uma das nossas prioridades. Porque nós não somos uma cooperativa de artistas. Nós somos uma cooperativa que quer contribuir para acolher artistas, cientistas e cidadãos, e cidadãs, mas quer também e quer principalmente criar rede. Para quê? Para que todo o conjunto de iniciativas que existe no Alentejo, que não é pouco, atenção, acho que muitas vezes nós não conhecemos, não é? Todo o tipo de estruturas associativas, cooperativas e até de artistas individuais, no fundo alimentar essa rede. É isso que nós queremos fazer. E, por exemplo, também abriu recentemente no Portugal 2030, uma iniciativa a ser promovida pelas juntas de freguesia, e nós vamos ter em breve uma reunião com as três juntas de freguesia, no sentido precisamente de procurarmos contribuir, não como proponentes, porque são as juntas que o devem fazer, para alguma atividade, que não é uma atividade, tem que ser uma atividade relativamente circunscrita, porque a dotação total são 300 mil euros, mas que permita isso. E aconteceu uma coisa muito engraçada, por falar em rede, que foi, eu enviei um e-mail para este programa de apoio, que se chama Fundos, que são dos fundos, e perguntei se as candidaturas tinham que ser uma junta de freguesia ou se podiam ser as três. E eles disseram que não tinham resposta, mas que iam ver. O que significa que se calhar, espero eu, provoquei, digamos assim, junto dos poderes públicos, esta questão de dizer assim, ah, pois se calhar pode não ser só uma junta, pode ser uma rede. E a promoção das redes locais é muito importante. Então nós vamos ter uma reunião, e eu não sei o que é que me vão responder, mas tem uma gostava imenso, e acho que seria muito interessante que fossem as juntas de freguesia e não uma junta.

A- Até porque é mais fácil, não é? Acho eu, mas isso leva-me a perguntar-lhe, é de facto uma pessoa destemida, destemida no sentido positivo da palavra, destemida no sentido de vai lá, coloca a questão, procura a informação, procura saídas, procura alternativas, é uma pessoa muito interventiva?

L- Sim, isso também é defeito de profissão, não é? Os sociólogos são muito chatos, não é? São chatos, chatos no bom sentido, não é?

A- Mas poderia acomodar-se, porque isto na verdade não é a sua vida profissional, não é?

L- Não, não, de todo, mas... Mas é o seu projeto de coração.

A- É um projeto de coração, e é um projeto de coração de todos nós. Como lhe disse há pouco, nós éramos seis, neste momento já somos doze, e entre esses doze temos a tal pessoa que é de lá, que é o Eduardo Luciano, temos uma pessoa muito destacada na cultura portuguesa nacional, que é a Vera Mantero, que é uma pessoa da dança contemporânea, e portanto temos um músico que é o Hendl Barcelos, temos a Catarina da área da produção, o Tiago Pinhal Costa, que há pouco já lhe referi, e o Nuno, que neste momento está a desenvolver trabalhos de gestão de projetos, e portanto também nos é muito útil desse ponto de vista.

A- É fácil encontrarem-se todos? Isso acontece com regularidade ou não?

L- Então, felizmente temos estas ferramentas, não é? O WhatsApp está sempre... Estão sempre a chover mensagens... Mas não há nada que substitua uma boa mesa cheia de pessoas, não é? E aliás, quando foi o nosso aniversário, todos os que conseguiram vir, não foram todos, mas foram bastantes, foram, penso que fomos oito, reunimos nas Alcáçovas, e reunimos durante um fim de semana. Tínhamos feito já em, penso que foi em janeiro, não tenho a certeza, fizemos uma reunião no Norte, porque algumas das pessoas são de lá e moram lá, e agora fizemos uma aqui. E como a Ana diz, presencial é fundamental. Portanto, o que nós temos feito é, temos reuniões online permanentemente, temos o WhatsApp, e o e-mail, etc, e depois temos reuniões presenciais que vamos calendarizando em função das nossas disponibilidades. E nessas reuniões faz-se aquilo que o povo chama, e bem, o parti-pedra, não é? Que é pôr as ideias todas em cima da mesa e conversarmos todos em conjunto. Portanto, eu diria que a cooperativa, usando a palavra da Ana, a interventiva, neste sentido, desta vontade de mobilizar as pessoas, e acima de tudo, de conseguirmos falar com as pessoas de uma forma muito cordial, participativa, e das a ouvir. Estou sempre a dizer isto, mas eu acho que é mesmo muito importante a escuta, e isso tem acontecido.

A- Ora, um grupo de fundadores tão diferentes, vindos das mais diversas partes, cada um com a sua carreira profissional, cada um com as suas raízes em determinados locais, quando chegam ao Alentejo, o que é que mais os conquista? No seu caso, a Luísa já cá está, portanto já a conhece, mas qual é a reação destas pessoas quando lidam com aquilo que nós, a Alentejo, temos para lhe oferecer? Uma gastronomia da melhor que há? Vinhos do melhor que há? A afabilidade e a forma como as pessoas recebem, o que é que mais os conquista?

L- Pois eu acho que, para além disso tudo, quando as pessoas cá vêm, comem bem, bebem bem, as Alcáçovas, como outras vilas do Alentejo, têm excelentes piscinas municipais, equipamentos, mas a questão fundamental são as pessoas, porque nós sem as pessoas não fazemos nada. E a ideia do vizinho, que é uma ideia que eu gosto muito, e que é da minha infância, eu tinha muitos vizinhos, e às vezes quando vivemos em cidades isso desaparece, a ideia do vizinho é muito importante, e portanto todas estas pessoas, quando cá chegam, seja ir à Margarida Ilhéu tomar um café e a encontrá-la, ou encontrar as pessoas das associações com quem trabalhamos, ou receber as pessoas na nossa oficina, são as pessoas que fazem a diferença para mim. E portanto o apoio que temos tido das juntas de freguesia, das câmaras municipais, das associações e dessas pessoas em si, é a questão mais importante. E isso é independente da cor política, porque nós tivemos apoios anteriormente, já tivemos com o novo executivo após as eleições, quer na câmara, quer na junta de freguesia, nas juntas, são pessoas diferentes, e temos trabalhado sempre em conjunto. E com todos, não é? E com todos, e portanto, e também com estas pessoas que há pouco lhe disse que nos vão oferecendo, ou dando o seu apoio com bens, que é uma coisa muito interessante, que é no fundo o princípio da troca direta, não é? E que, mais uma vez, também vai beber ao princípio cooperativo.

A- Há uma questão que é importante, na minha opinião, referir, que é, muitas vezes olha-se para as associações, para as cooperativas, seja elas em que modelo forem, mas olha mais uma, quando há uma associação num determinado território bem estruturada, com objetivos bem definidos, é importante dizer que isto é também uma mais-valia para a economia local. Porque no vosso caso, sempre vocês fazem uma atividade, uma escola de verão que trazem pessoas de fora, seguramente durante esses dias a economia local também cresce.

L- Muito, muitíssimo, muitíssimo. A escola foi um momento de muita dinamização, nós também promovemos, obviamente, a oferta de estadias que existe lá, foi lá que nós albergamos as pessoas, e isso é...

A- Vão ao café, tomam um café. Vão à mercearia, compram isto ou compram aquilo.

L- Almoçar e jantar fora. Portanto, tudo isso é absolutamente fundamental dos elementos da economia local. E isso acontece de facto. E isso que a Ana disse é muito importante, porque de facto nós, também pelas nossas experiências profissionais, somos pessoas muito diferentes, mas bastante experientes. Quando começamos a fazer esta... Quando começamos a criar a nossa cooperativa, fomos buscar os nossos trunfes, digamos assim, que é isso, é a experiência em sermos estruturados, fazemos facilmente um orçamento, sabemos escrever um português, claro, e isso de facto é importante. Eu ainda me recordo, outro dia estava a perguntar ao nosso cooperante Eduardo, ele na altura estava na Câmara Municipal, nós não conhecemos lado nenhum, e ele disse que quando recebeu o nosso pedido de apoio à Câmara da nossa proposta da escola de verão do ano passado, disse assim, é lá, isto é diferente. Ou seja, temos aqui um conjunto de pessoas que são interessantes e que nos conseguem apresentar uma coisa clara e está tudo definido, os objetivos, quem somos, quanto é que isso custa, etc. E portanto nós esperamos que isso seja também aproveitado como uma mais-valia a nível local, por entidades públicas e privadas. Estamos abertos, digo desde já, os contactos estarão com a ANA disponíveis, estamos abertos, a cooperativa está aberta a todo o tipo de colaborações, é só contactarem-nos e conversamos.

A- Mesmo fora das portas de Alcáceres?

L- Exatamente, estou a falar, sim, no Alentejo, não é? Portanto, queremos de facto, estamos ali, não é?

A- Até criar dinâmica com outros conselhos de visitas?

L- Exatamente, há projetos que nós agora vamos fazer, vamos ser parceiros para as candidaturas a Évora 27, que tem Montemor, que tem Évora, pronto, não é? Nós não somos, as fronteiras administrativas são muito menos importantes.

A- E às vezes são os piores. Luísa, estamos quase no final da nossa conversa, queria-lhe pedir que me dissesse, 2026, estamos ainda muito no início, é o terceiro mês do ano, qual é assim o projeto de maior importância para a cooperativa prestia?

L- Seguramente a Escola de Verão, portanto, como eu disse, tem como tema terra, terras e territórios.

A- Terra, terras e territórios.

L- O TTT foi assim que nasceu, e a ideia é precisamente discutir questões que aqui falamos, do ponto de vista das especificidades territoriais, da questão das fronteiras, que é uma questão muito importante, da questão como é que o património é muito mais importante de ser discutido do que fronteiras administrativas. Como a Ana disse, o património é um património local, regional, nacional e internacional. Não devemos olhar para estas questões do ponto de vista só micro, não é? E nessa escola vamos ter pessoas nacionais, artistas, cientistas, pessoas que vêm participar conosco, cidadãos de lá, várias associações com quem estamos a falar, e promover também sempre a participação das juntas de freguesia e das câmaras municipais. E portanto esse é, de 19 a 24 de julho é o elemento-chave, digamos assim, este ano da nossa cooperativa. A par disso já começamos a ter um conjunto de residências artísticas cujos resultados vão ser apresentados na escola, e temos duas exposições pensadas para o paço dos Henriques, uma a iniciar-se em maio e outra a iniciar-se em setembro, que no fundo prossegue, digamos assim, a programação do laboratório gráfico do passo.

A- Sentem que primeiro estranhou-se, mas depois entranhou-se?

L- Na realidade não sei só não ver se estranhou.

A- Então houve um trabalho prévio que facilitou seguramente, e hoje em dia a palavra é a melhor forma de publicidade.

L- Sim, e as pessoas, não quero falar noutras regiões obviamente, não quer dizer que umas sejam mais que outras, mas os Alentejanos, e os Alentejanos são pessoas super acolhedoras, e eu digo-lhe que é uma experiência, é inqualificável para mim, de ponto de vista positivo, o apoio e termos no fundo todas estas pessoas connosco.

A- Na realidade, e em jeito de conclusão, a oficina da Rua do Relógio em Alcáçovas, criada por um grupo de pessoas que a partir do momento em que concretizaram este seu sonho, passaram a ser embaixadores de Alcáçovas, do Alentejo, e sempre que alguém vem de fora e participa numa atividade desta oficina, quando vai embora é também essa pessoa um embaixador da nossa região, do que de melhor se tem e se faz por cá, e isso nós enquanto cidadãos desta região só temos que lhe agradecer, porque sempre que alguém promove e ajuda a desenvolver a nossa região, só temos é que estar gratos. Luísa, já conhece Vila Viçosa ou não?

L- Sim, mas hoje vou dar aqui um passeio.

A- Era isso que eu ia dizer. Vá dar um passeio, descubra as potencialidades desta vila, que está também num processo de candidatura a Património Mundial da Unesco, que esperamos, desejamos todos que seja um desfecho positivo, mas vai ver que se vai surpreender, e aqui também há muita matéria que lhe pode interessar, e contactos que pode fazer nesta área cultural.

L- Quem nos está a ouvir, estamos abertos a todo tipo de iniciativas e de pessoas que gostassem de colaborar. Não é colaborar connosco, é colaborarmos juntos. Nós é que agradecemos, Ana, sinceramente, agora quando disse a palavra agradecer até me arrepiei, porque na realidade nós é que agradecemos a simpatia, a disponibilidade, e estamos absolutamente abertos a todo tipo de colaborações que possamos fazer com os cidadãos e as cidadãs de Alcáçovas, quer individualmente, quer das suas instituições.

A- Esta é também a nossa missão enquanto rádio, a missão de estar próximo das pessoas, das associações, das instituições, porque esta rádio não é de A nem de B, esta rádio é das pessoas, e as pessoas somos todos nós. Gostei muito de te conhecer, Luisa.

L- Também, Ana, muito gosto. Obrigada, foi uma boa conversa, julgo eu.

A- Muito obrigada, iremos seguramente encontrar-nos noutras vezes. Desejo-lhe uma boa viagem de regresso a Alcáceres e também a Grândola, não sei se vai para a Grândola hoje ainda. Vou para Alcáceres. Vai primeiro para Alcáçovas. Um beijinho lá para Alcáceres e para Benise também, em nome da Rádio Campaná, todos os seus colegas fundadores deste projeto que é maravilhoso e que nos permite olhar, de facto, para a região com a certeza de que aqui há espaço para tudo. Basta querermos e termos vontade de trabalhar.

L- Exatamente.

A- Obrigada, Luisa Veloso. Fica por aqui a hora do café de hoje. Como sabe, hoje é sexta-feira, portanto fazemos uma pausa nas manhãs da Ana. Vamos estar de descanso à manhã que é sábado e domingo e segunda-feira estamos de regresso para o programa Amanhãs da Ana a partir das oito horas. Eu desejo-lhe um bom fim de semana.

Aproveite o tempo que temos aí, já é quase primavera. Olha, saia de casa, vá dar um passeio, mas se puder leva a rádio, sempre consigo. Um bom dia para si.

 

 

 

OPEN CALL
EARTH, LANDS & TERRITORIES
International Summer School
19-24.07.2026

 

A (re)connection of humans with all existing beings, matters and forces must draw in policies that address the peripheries and has to take into account the heterogeneity of territories. Thinking ecology today has become a multidimensional and deeply interdependent task, as urgent as it is gargantuan, comprising all aspects, forms and ways of knowledge production. This undertaking will have to take place on various intertwined scales and dimensions, influencing and determining each other.
Earth, lands & territories reflect these interconnected dimensions. None exists without the other and, thus, must be thought together.

 

The school is designed to be a space for mutual and transdisciplinary learning, whereparticipants are encouraged to contribute to the discussion and understanding of the present, while collectively envisioning an emancipated future. It is a summer school taken as a laboratory, where experiments, performances, papers, readings, sounds, short-films, etc. are welcome.

 

For more information, please reach us through the email summerschool@oficinaruadorelogio.com